sexta-feira, 8 de junho de 2007





SELEÇÕES 1968

Um exemplar de Seleções do R. Digest, ano 1968, con-
tinha uma reportagem sobre Herculano, a cidade so-
terrada em 76 D.C. pelo vulcão Vesuvio.

Meu pai me disse uma vez:
- Por que é que voce tem atração por coisas antigas?
Isto não é normal...

Para mim amar "coisas antigas", é uma arte - como se
eu fosse compositora em violão ou piano.
Eu viajava em imaginação pelas antiguidades, sonhando
com o que pudera ter acontecido ali, ha muito anos...

O arqueólogo, acho eu, vive mesmo um pouco fora da
realidade atual: ele tem a possibilidade de descortinar
uma existencia passada.

Seria como, se do Espaço o arqueólogo revisse sua exis-
tencia terrestre e corrigisse como refazendo a pintura
de um quadro, todos os lances mal feitos durante sua
existencia ali.

De qualquer maneira, não é como o vinho, mas os arqueó-
logos fogem da existencia atual - ou vivem fora dela.

Eu adorei andar em imaginação pelas ruas de Herculano,
naquela reportagem.
A cidade ali descrita, tomava um pouco a caracteristica
grega, tornando o ambiente, de uma vida com o refina-
mento grego, misturado à elite romana.

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Uns quinze anos depois, acompanhada por um camera
de Tv, eu percorria Herculano.

Uma das paisagens mais belas, é a do Vulcão Vesuvio
como fundo ao longe da cidade.

Ao descer a passarela que conduz à cidade embaixo,
ainda em escavações, parecia que eu não suportaria a
emoção do sonho realizado.

A cidade, por sua aparencia distinta, parece mesmo um
trecho grego.
Misturando a cor escura ao vermelho típico da cidade,
dá-nos impressão de estarmos sempre acompanhados
pelas almas dos que ali morreram na catástrofe.

Porque é belo e triste.
Mas que deliciosa tristeza!

O calor era intenso e o vento levantava as ainda cinzas
do vulcão.
Foi por isso que eu curvei minha cabeça sob a bica de
bronze de uma das fontes que ficam nas esquinas das
ruas, e molhei meu cabelo e o rosto, pensando, quantos
não fizeram ali, naquela fonte, o mesmo gesto que eu!

Emoção maior, foi eu ter dado com uma das casas des-
critas no Seleções:
- ali estava ela, altíssima em pé direito, com colunas orna-
mentais a volta do teto, uma quadrado aberto no meio do
telhado que deixaria passar a água da chuva para uma
rasa piscina em meio ao atrium - o "pluvium".

Eu entrei no colhedor de água da chuva, sentei em sua
pouco alta borda, e erguendo o rosto para a claridade do
teto, fui fotografada pelo camera, numa das fotos mais
amadas que tenho!

quarta-feira, 6 de junho de 2007


O CAMINHO

Encontro com Ele

Quando o encontrei,
desejei ficar com ele
a Vida Inteira

mas, eu não conhecia a Vida,
não sabia segurar a Vida

Ele vinha com as filosofias,
eu, perdida, exilada da India,
queria reencontrar o Hinduismo

Ele não tinha o Hinduismo,
eu não tinha as filosofias

Partimos em direções opostas
enquanto Ele
percorria a Europa
e conhecia o Nepal

Eu fui para o Sul da India
orar diante de um altar selvagem
do Hinduismo
Ele, diante do Dalai Lama,
recebia o xale branco,
oferta do Budismo Tantrico Tibetano

No Altar Negro de Murunga,
diante da Selva do Tamil Nadu,
na encosta dos baixos rochedos,
uma flor espinhenta, acre, sangrenta,
nascia no meu peito

Do Norte,
ao Sul da Asia,
o xale branco do Tibet,
envolveu delicadamente
a flor selvagem do Hinduismo
e as mãos suaves do
Dalai Lama,
promoveram o reencontro,
e quase ao fim de nossa jornada,
estamos no Centro,
sem Começo e sem Fim

terça-feira, 5 de junho de 2007




QUE AS LAMPADAS DO TEMPLO FIQUEM ACESAS


A chuva fina que caiu durante todo aquele dia de Domingo,
transformou-se em trovoada na tarde que logo veio.

A tempestade trouxe um vento amargo que entrou pela
porta da frente do Templo, apagando as lampadas cui-
dosamente zeladas.

O povo teve coragem de se aproximar do corpo da baia-
dera, estirado ensanguentado no fundo da nave princi-
pal, junto à escada que confuzia para as escavações
no rochedo.

A Tempestade mantinha ainda claro o fundo da nave,
com a escuridão que avançava, apagando as lampadas
desde a porta.


No dia seguinte, diante do Templo, sobre a terra molhada,
o corpo esfaqueado, amortalhado, jazia sobre um estra-
do de galhos quebrados.


A Morte, envolta em paixão, se escondia atrás das está-
tuas que sustentavam o alpendre da entrada.

Traziam flores que colocavam sobre o corpo.
Ninguém via o espírito da devadase, sacerdotisa e dança-
rina que da entrada do templo, olhave se a nave sagrada
estava com todas suas lâmpadas acesas...

DUPLA VIDA


Se fosse possivel levar dupla Vida!

Aqueles que se recordam das Vidas Passadas... podem ter um
desses "cadaveres" no Espaço.

No cultivo do "cadaver", contemplando-o, sabem que ele é puro,
depurado, e o vêm com suas auras de Luz, cambiamento de
cores, e usam-no para levar suas meditações, suas preces,
aos Mestres que amam, e usam-no para receptacu-lo das
Graças do Infinito.

O cadaver, Mumia Sagrada, pode corresponder aos desejos
dos egipcios que assim conservavam seus mortos, para que
o Mundo do Planeta Terra, continuasse com seus
mortos cobertos de honrarias dos deuses, pelos trabalhos
misticos dos Sacerdotes.
Até pela cerimonia da Abertura da Boca, faculdade que herdaria
nas proximas Vidas, para se recordar das existencias passadas,
aTerra seria um reflexo sombrio, cristal escuro, refletindo um
Céu magnifico, dificil de ser compreendido.

O duplo etéreo, revestido da forma de nossos sonhos, com suas
cores iluminadas pelas energias dos Mundos Espirituais, seria
nosso consolo, companhia imprescindivel para a Vida Espiritualizada.

Se pudessemos fazer da alma do ser amado que a morte separou
de nós, essa "companhia" no Espaço, seria uma contrapartida
recompensada pelo desejo do Amor que tinhamos esperança de
não desaparecer - e o Amor pouco atrapalha no caminho da Iluminação -
as vezes cooperando com outro sintoma de revelação da Divindade.

Quantas Vidas, estará Beatriz para Dante, Laura para Petrarca,
Heloisa para Abelardo, nessa deslumbrante troca de Existencias
que são as vidas alternadas nos túneis da nossa Evolução
Espiritual?

segunda-feira, 4 de junho de 2007





VERONA

Surpresa para mim, foi o grupo se reunir para sair a
noite para comer melancia.

Ora, no Brasil, ninguém faz programa com melancia...

Mas foi uma bela noite!

Verona é bela porque tem sua antiguidade de bela,
sua quietude européia, o rio que corta a cidade e passa
sob as pontes centenárias.

Como não tem edifícios altos, o céu se desdobra sobre
o lugar como uma tela de seda azul, bordada a ouro.

Depois da melancia, nos sentamos nas cadeiras de um
bar, diante da Arena, a mesma construção do Coliseu,
um pouco menor, porém mais bem conservada; ence-
nam até Óperas aí.

Ainda bem que só depois que voltei ao Brasil, soube que
foram queimados vivos 200 cátaros na Arena, na épo-
ca de sua perseguição.

Não tendo a exuberancia escultural de Florença, Verona
tem as linhas retas e simples do medieval, mas é bela
milímetro por milímetro.

Vizinha de Veneza, a lembrança de Verona se caracte-
riza também pela água. A água do rio que a corta, e o
lago de Garda, que faz fronteira com outros paises eu-
ropeus.

À volta do lago, em Verona, ruinas de castelos medie-
vais, que também tiveram cátaros presos em suas
masmorras.

O lago é ornamentado em suas águas com rochas,
onde se deitam os banhistas - às vezes, até despidos.

E mansões, têm seus jardins terminando nas águas,
onde escadas ocultas entre as plantas, ~são as en-
tradas para as primeiras salas dessas casas.

Como Veneza, tem grandes praças e o silencio
comanda o lugar, pois esse silencio tem o poder de
dissolver qualquer barulho - permanecendo ele como
a verdadeira atmosfera da cidade,
a cidade das calçadas de mármore vermelho.

domingo, 3 de junho de 2007


A PRESENÇA E A METAFISICA


O senhor me faz um desafio:
me explicar sobre a palavra e a metafísica
Para o senhor, que é filósofo, discorrer sobre a
palavra, é fácil e sobre a metafísica, também,
pois a filosofia não perde o governo nos dois.
Mas eu não sou filósofa, e aberta somente para a
metafísica, piso no solo oriental, que apresenta
a desnecessária construção utilitária de qual-
quer pensamento condutor.

O oriente dá-nos a meditação como diálogo e tudo
o mais nesse âmbito e aspecto prescinde da
construção racional do homem.

O senhor poderá me orientar se existe uma posição
que mantenha o racicinio ocidental filosófico,
no desempenho do homem dentro da vida?

Ou, o que é "dentro da vida "?

sábado, 2 de junho de 2007


A Inspiração vagava como Espirito sobre a Terra.

A Brutalidade reinava no solo encharcado de sangue.

A Beleza estava nos pássaros, na Natureza, e nos Astros
que iluminavam o Planeta.

A Inspiração era Espirito e o Espirito é transcedental,
ainda que o Homem não sinta a sua passagem.
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O Espirito seguia a mão carnuda e maltratada que risca-
va com uma lasca de pedra, a parede de uma gruta fe-
dendo a carniça e cheiro de fumaça imunda.

Porque o animal riscado sobre a rocha, o animal de
pernas estiradas correndo ao vento quente da exala-
ção do Vulcão, teve seu dorso aprimorado com uma
sombra, uma segunda linha - uma linha que era artística -
espiritualizando a outra, que era o dorso da carne de
caça.

As fóças sujas do homem das cavernas, agora respira-
vam fino, porque sua alma, apegada ao coração surdo
de Espiritualidade, prendia a Inspiração numa tela bruta.

O Espirito reinava como um deus encarregado do des-
pertar das Almas.

E só a Inspiração, a Arte, seria necessária para fazer
nascer a Civilização.