segunda-feira, 31 de março de 2008

A MORTE DE CLARISSE INDIO DO BRASIL

A MORTE DE CLARISSE INDIO DO BRAZIL
CARTA
Caro Amigo:
Foi a morte de Clarisse que estourou a profusão de versos e cartas, como as de Coelho Neto e Humberto de Campos. Na verdade, Clarisse não fez nada digno de nota: casou-se contra a vontade da família, por ser Indio do Brazil um homem sem dinastia, de pele morena e sabe-se lá de que descendência... Fazia caridades, licores, e copiava trechos românticos de livros - e muito católica, de gênio forte, tiradas alegres que faziam rir os criados, ficou com toda a criadagem em casa durante a epidemia da espanhola - e só. Mas sua morte trouxe duas coisas importantes: a estranha personalidade do assassino, o mistério do seu gesto. O magnífico epílogo, foi a intervenção da mulher do assassino, a carta que ele escreveu lamentando o destino de Alice, sua esposa, a personalidade dele que chegou a assombrar o Delegado - demonstrando magnífica inteligência, sabendo eu por carta dele que na verdade era parente dos Jaguaribe e portanto de origem nobre! O encontro da chegada da carta de Alice, a esposa do assassino, no momento da entrada em coma de Clarisse e ainda sua ultima reação, pedindo ao marido que perdoasse Mario - e chamando-o por último de Coração, como aliás era assim que tratava o marido. Sei por pessoas que o visitavam a prisão, que Mario tornou-se espírita e fazia seções na cadeia para pedir perdão à Clarisse. Mario recebe condenação de 20 anos, mas sai com uma condicional aos dez anos de pena. Dizem que constrói uma casa para Alice e se mata - mas, como eu nunca soube como se matou, não pude até hoje escrever essa historia. Aguardo qualquer aparte ou correção sua amiga Clarisse
Clarisse Lage Indio do BrazilClarisse Lage Indio do Brazil fará 8l anos de morta, no dia 7 de Outubro de 2000. Quem foi Clarisse, de quem uma rua de Botafogo tem seu nome? Em primeiro lugar, foi minha avó. Clarisse não teve filhos e adotou uma menina, filha de seu cozinheiro chinês. À essa menina, ela deu o nome de Ruth - Ruth Indio do Brazil - que veio a se casar com Adalberto de Oliveira, funcionario do Banco do Brasil - de quem uso o nome que me foi registrado. Tirando o "Indio do Brazil", Clarisse de Oliveira. Clarisse Lage nasceu em 4 de abril, talvez no ano de l869. Era filha do Comendador Antonio Martins Lage e de D. Anna Ribeiro Mattos Lage. Casou-se - contra a vontade da família, com Arthur Índio Do Brazil e Silva, em 23 de Janeiro de l893. Até a data de seu casamento, em 27 de junho de l888, Arthur tinha sido Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de l6 de novembro de 1889 e janeiro de 1890, Chefe de Segurança Publica do Pará e Presidente do Conselho de Intendência de Belém ( 24 de fevereiro de 1890), Deputado à Constituinte Federal. Foi um dos signatários da Constituição. Arthur I. do Brazil, foi Deputado, Almirante e Senador e em 23 de dezembro de 1925 Grande Benemérito e Marquez pelo Papa. Clarisse e Arthur residiram a Rua Voluntários da Pátria, 118, numa casa chácara, onde criava vacas holandesas para o leite da Casa dos Expostos, da Fundação Romão Duarte - e conhecida como pessoa caridosa e preocupada com os pobres. Havia uma face de Clarisse que naturalmente a sociedade daquela época não daria o valor que seguramente hoje não passaria despercebido: o seu imenso amor aos animais. Clarisse era amiga do Diretor do Jardim Zoologico, cujo nome aparece na lista dos presentes ao seu enterro: ela conseguira encanar a perna de um pássaro pernalta! O touro reprodutor de suas vacas, chamava-se "Pará" e tinha uma argola no nariz pois era um animal de grande força. As araras acompanhavam-na pelo corrimão da escada quando Clarisse subia ao segundo andar de sua casa. A mordida de um mico no seu rosto, deixara-lhe uma temporária inflamação. Um macaco chimpanzé chamado "Nero", tivera mesa própria para comer e copinho de prata com nome gravado - um cão se arrastara para morrer a seus pés - aliás, este cão está no grupo de estátuas da sua sepultura. A Trágica Morte de ClarissePor ocasião do assassinato de um político, Clarisse disse ao seu marido: - "É assim que eu vou morrer"- Arthur reagiu: "Que bobagem, Clarisse, como pode dizer uma coisa dessas!" - e mais tarde, quando se rompeu seu colar de pérolas e, recolhidas, nenhuma faltava, ela disse: "Nem mais um dia de vida - a morte está próxima". Em fins de setembro de 1919, Mario Abreu Teixeira Coelho, desapareceu de casa. Era viciado em cocaina e alcoolatra. Mario reaparece na tarde de segunda-feira, dia 6 de outubro, às l8:30 horas, no centro da cidade, esquina da Rua do Ouvidor com Ourives, perto da joalheria Luiz de Rezende. O Senador Arthur I. do Brazil, tinha um escritório a Rua da Alfandega, 94. Clarisse costumava todas as tardes buscar o marido no trabalho. "O JORNAL"- Terça-feira, 7 de outubro de 1919."Faltavam alguns minutos para as 18:30 horas. Um "Landaulet" vindo pela Rua dos Ourives, foi estacionar próximo a Rua do Ouvidor, em frente à Joalheria Rezende. O motorista, saltando, deu a volta para abrir a portinhola do carro, a fim de dar passagem a passageira. Nesse momento, foi ouvido um estampido, que não despertou curiosidade por ter sido tomado como estouro de câmara de ar. O "chauffeur" chegava-se à porta quando esta abriu-se bruscamente, apparecendo o "toillett" azul da senhora do Almirante Indio do Brazil, que, tendo a mão esquerda sobre o peito e a direita agarrada ao trinco da portinhola, declarou estar ferida e indicava como seu agressor um indivíduo que, as mãos nos bolsos das calças, procurava desaparecer dentre a multidão que transitava por aquelle trecho. O motorista correu em direção do apontado criminoso, que entrou pela porta da joalheria, na parte da Rua do Ouvidor, saindo pela outra do lado da Rua Dos Ourives.
Outros populares, que o viram guardar o revólver no bolso, com o grito da senhora, perceberam tratar-se de um crime, e tentaram também tolher os seus passos.
O indigitado criminoso fez novo percurso pela Rua do Ouvidor, penetrando pela Ourivesaria pela segunda vez, sendo, ao sair pela Rua dos Ourives, detido pelo motorista e outros populares que embargaram a sua passagem.
- Que querem de mim? Foi a única pergunta que fez o desconhecido, que se mostrava alheio a toda ocorrência.
Os gritos de acusação partiam de todos os cantos e o guarda civil rondante, acudindo ao alvoroço, inteirando-se do caso, deu voz de prisão ao detido, que se prontificou a segui-lo.
Foi afirmado de que a arma de que se servira estava em um dos seus bolsos, e o policial revistando-os, apprehendeu-a.
Era um revolver "bulldog" velho, de cano curto. Estava carregado com as cinco cápsulas, das quais uma estava detonada.
Enquanto isso se passava, a senhora do Senador Indio do Brazil era carregada para a pharmácia Werneck, onde recebeu os primeiros socorros, até a chegada da ambulância da Assistencia que a transportou para a Casa de Saúde São Sebastião, onde ficou internada."
Continuando o relato da época, o acusado, chegando à Delegacia, foi interrogado pelo Comissário Abílio e disse chamar-se Fernando Batista. E nada quis dizer sobre o atentado à senhora do Almirante, que declarou conhecer e disse chamar-se Clarisse.
Os seus bolsos foram remexidos e encontrados neles promissórias, e outras confirmações de dividas de Credito para Mario Abreu Teixeira Coelho; e, dois cartões dos advogados Domingos Jaguaribe e Arlindo Vieira da Costa. Foi ouvido o chofer Ismael Tavares da Silva que declarou servir há menos de um mês à família do Senador e que não viu o criminoso alvejar D. Clarisse, prendendo-o por ter ela o apontado como seu agressor.
"Foi qualificado na Delegacia, Mario de Abreu Teixeira Coelho, filho de Geraldo Teixeira Coelho e Felicia Teixeira Coelho, com 34 anos de idade, casado, natural de Minas Gerais, empregado no Comercio e residente à Rua Lafayette n 11, em Ipanema."
Era o criminoso um tipo observador e sereno e conhecedor das pessoas de nossa sociedade.
(Nos jornais dos quais tirei cópia da Biblioteca Nacional, Mario Coelho era descrito como um individuo alto e magro, que usava bigode.)
"O JORNAL" "A pobre senhora, em estado grave, deu entrada na Casa de Saúde São Sebastião, apresentando um ferimento no peito. Às 22hs foi submetida submetida à operação, estando os facultativos esperançosos de salvá-la. "... bastante forte e resoluta a enferma mostra-se animada e encoraja o seu esposo, que não a tem abandonado um só instante.. São seus médicos assistentes, os srs. Jorge Gouveia e Simões Courreia, que constataram dois ferimentos, um de entrada e outro de saída do projectil. ............................................................................................................................... ... E o Congressista (Senador I. do Brazil) mostrava-se surpreso com os tristes sucessos de que fora vítima mme. Clarisse que pouco sae de casa e só vive praticando o bem, socorrendo aos necessitados, dando enfim, sempre que pode, expansões aos seus sentimentos de grande e altruística generosidade. "Se fosse a mim - concluiu o senador Indio que o criminoso ferisse, ou tentasse ferir, ainda se compreende, dada a situação de político militante, mas, a minha senhora, é demais! "O JORNAL" Quarta-feira, 8 de outubro de l9l9

Teve já o seu triste epílogo, o impressionante crime de que foi theatro o movimentado canto da rua dos Ourives com Ouvidor do qual foi vitima a esposa do Senador Indio do Brazil.
Conquanto apresentasse, até a tarde, sensíveis melhoras, ao anoitecer teve aggravado o seu estado, e d. Clarisse veio afinal a falecer.
"O tachygrapho do Senado, Mario Teixeira Coelho, o criminoso, recolhido, ainda, ao xadrez da delegacia do 1o districto, como já na vespera succedera, continua indiferente ao homicídio praticado, recusando-se a fazer quaesquer declarações sobre o seu acto.
A primeira noite de enxovia, passou-a Mario, agitado, quasi não conseguindo conciliar o somno. Pela manhã, entretanto, um outro facto, ainda, surgiu, surprehendendo a policia do 1o Districto. A um canto do xadrez a que estava recolhido, Mario Coelho, tentou contra a existencia, lançando mão de seu proprio suspensorio, com o qual pretendeu enforcar-se. ........................................................................................................................ ...Quando (sua esposa) Alice soube do destino de Mario, ficou desesperada. Era acudida pela sua idosa criada e pela vizinhança que apiedada de sua situação, tudo fazia para ajudá-la. Receberam a visita do Delegado do lo Distrito que soube ser Mario Abreu Teixeira Coelho, quando no seu estado normal, um exemplar esposo e chefe de família."
O JORNAL - O DEPOIMENTO DE UM DESCONHECIDO"O Sr. Santos Netto ouviu na delegacia do lo Distrito o capitão do Exército Francisco Jaguaribe de Mattos, que conhece, há muito, o criminoso, desde o tempo em que foi este alumno da Escola Militar. Affirmou aquelle oficial estar convencido do desiquilíbrio mental de Mario, que, ultimamente, era dado ao vicio da embriaguez, circunstancia essa que tornara desregrada sua vida.
Acrescentou o depoente que, por varias vezes tentara fazer Mario voltar ao bom caminho, tendo ate tratado também delle, durante um tempo, o seu próprio pae, o clínico sr. Jaguaribe.
O JORNAL - UMA CARTA DA ESPOSA DO HOMICIDA'"D. Alice Teixeira Coelho, a infortunada esposa do criminoso, a despeito de sua grave enfermidade, dirigiu, hontem, à sra. Indio do Brazil, uma carta de supplica, concebida nos seguintes termos: "7 de Outubro, 1919
Exma. D. Clarisse Indio do Brazil. Minhas sinceras visitas, pedindo a Jesus e a Maria Santíssima o seu breve restabelecimento. Venho com meu filho, de joelhos aos vossos pés, pedi-lhe que perdoe meu marido, que lhe feriu hontem, elle, coitado: é um irresponsável, doente debaixo da ação da cocaina.
Espero do seu bom coração, que a senhora e seu Exmo. Marido perdoarão o meu infeliz marido, elle lhe feriu como feriria a mim, (antes fosse) ou a qualquer pessoa. Não vou ahi pessoalmente com o meu filhinho, lhe pedir, porque, infelizmente, estou entrevada com rheumatismo há 8 mezes. Hoje, cedo, já escrevi ao Exmo. Conego André Arcoverde, pedindo que intercedesse junto da senhora, e do seu Exmo. Esposo, em nosso favor. Mais uma vez conto com a sua benevolência, em perdoar esse doente.
Sempre às suas ordens. ALICE TEIXEIRA COELHO
Rua Lafayette, ll, Copacabana
Quando o mensageiro chegou da parte do Cônego Arcoverde, com o bilhete de Alice, Clarisse já entrava em estado pré-comatoso. A casa de Saúde São Sebatião e o seu quarto estavam repletos com seus amigos. Sua irmã, D. Annita, que não a largava, e seu marido Indio do Brazil que chegou a oferecer suas veias para uma transfusão de sangue afim de compensar a fatal hemorragia, causa de sua morte, estava ajoelhado ao lado de sua cama, em prantos, enquanto ela passava a mão sobre seus cabelos.
O mensageiro lê o bilhete de Alice, em voz alta - o pedido de perdão para o criminoso. Usando o seu último alento, Clarisse se dirige ao marido: "Perdoa, Coração !"
- E, hontem mesmo, foi o cadáver da desditosa senhora, transportado para a residência de seu esposo, onde será procedida a necessária necropsia, por médicos legistas. -

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IMMACULADAEsther Ferreira Vianna
Para a alma muito branca de D. Clarisse Indio do Brazil E a alma de Clarisse', Em ultima expansão, Pedia com meiguice - Perdoa - Coração!
A arvore frondosa Produz o alento e a vida, Na fructa saborosa, Da propria flor nascida.
Nós somos fructo e flor, - Fatalidade ou morte. E a vibração do - Amor - É o nosso alento forte.
Si a alma é bem formada, Perdoa, terna e santa E altiva - Immaculada - Em tudo se alevanta.
E a alma de Clarisse, Em ultima expansão, Pedia com meiguice - Perdoa, Coração!
Porque, na sua alvura, O lyrio é, no lyrial, O que a alma é, quando pura, No engaste celestial
Nossa alma, branco lyrio, Si é forte em sua fé Na gloria ou no martyrio, Espalha o bem e cre!
E cre, serena é pura Em plena luz, sem véo, Exalta a creatura E faz da terra um céo!
E a alma de Clarisse, Em ultima expansão, Pedia com meiguice - Perdoa - Coração !
(25 de Janeiro de 1920)

7 comentários:

Yuri disse...

Oi Clarisse... tudo bom
Eu sou pesquisador e estava por acaso pesquisando sobre o Tenente Índio do Brasil, não sei se é o mesmo de quem vc é neta, se for, poderia entrar em contato comigo! Obrigado. Yuri Abyaza Costa

Anônimo disse...

clarisse o almirante indio do brasil foi o mesmo que naufrago em regencia ES com a corveta imperial e foram salvo pelo pescador caboclo bernado?
alessandrofaustini@hotmail.com

kissia brasil disse...

Tenho o sobrenome Indio do Brasil e estou querendo saber se venho dessa familia, por favor entre em contato kissiabra@hotmail.com

Anônimo disse...

Lendo um livro de Lili Castelo Branco,fases do meu passado, deparei-me com esse sobrenome "Senador A. Índio do Brasil" fiquei curioso e pesquisando descobri essa tragédia com D. Clarisse. Fiquei facinado por essa história, pois sou Arqueólogo. Lili Castelo branco era muito amiga de D. Clarisse. Ela era esposa do Deputado Federal pelo Pará, heitor Castelo Branco

Anônimo disse...

Lendo um livro de Lili Castelo Branco,fases do meu passado, deparei-me com esse sobrenome "Senador A. Índio do Brasil" fiquei curioso e pesquisando descobri essa tragédia com D. Clarisse. Fiquei facinado por essa história, pois sou Arqueólogo. Lili Castelo branco era muito amiga de D. Clarisse. Ela era esposa do Deputado Federal pelo Pará, heitor Castelo Branco

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

Meu bisavô se chamava gentil indio do Brazil será que era da mesmo fmilia